Carlos Lopes, engenheiro e escritor. Escreve sobre tramas, temas místicos e mistérios, com o objetivo maior de envolver e integrar o leitor ao livro. Quando, na trama, insere o leitor "dentro" do livro, significa que a condição de escritor foi eficiente.
Domingo, 23 de Março de 2008
Regressão

  A regressão permite à pessoa conhecer ou relembrar situações de vidas encarnadas e entender como essas situações se originam, se refletem e se propagam em sua vida atual.
 
Acredito que em nossas vidas passamos pelas mais diversas experiências, as quais podem ficar impregnadas em nosso subconsciente e que através da regressão, poderemos comprovar a realidade dos nossos mundos espirituais e o nosso desencarne. Compreendemos porque um indivíduo nasce com determinada personalidade ou característica e passamos a entender e aceitar o objetivo da nossa vida atual, com uma visão mais abrangente. Com isso conseguimos, quem sabe, entender porque determinado fato ocorrido em nossa vida presente, pode ser explicado através de uma situação mais convincente e mais real ocorrida em nossa vida passada.
 
Entendo que a regressão é sempre possível, pois os fatos ocorridos em nossas vidas passadas ficam registrados em nosso subconsciente. Neste caso, o ato da regressão é a chave que faz abrir o nosso subconsciente para nos mostrar quem fomos, o que fomos e o que fizemos em nossas vidas passadas.
 
Imagino que todas as pessoas que nos cercam em nossa vida atual sejam elas, parentes, amigos ou até inimigos, de alguma forma, podem ser consideradas como nossos velhos conhecidos, pois acredito que essas mesmas pessoas de nossa vida presente fizeram parte de alguma forma em nossa vida passada, não necessariamente na mesma ordem ou situação, ou seja, a minha mãe da minha vida atual pode ter sido a minha irmã ou esposa na minha vida passada. O meu pai da minha vida atual pode até ter sido o meu inimigo em vidas passadas e por aí vai. Como saber? É só voltar e verificar, se é que isto seja possível.
 
Por outro lado, sempre ficamos intrigados quando às vezes encontramos pessoas desconhecidas em nossos caminhos e nesses encontros casuais fazemos o seguinte comentário: conheço essa pessoa de algum lugar. Quem sabe não terá sido em nossas vidas passadas?
 
No entanto, penso que a pessoa que queira fazer uma regressão deverá estar consciente de que abrirá a porta oculta do seu subconsciente, onde poderá vislumbrar experiências vividas, agradáveis ou não. Portanto, deverá estar preparada para revivenciar tais fatos com coragem e determinação.
 
Desta forma, torna-se importante, acredito até imprescindível, que a pessoa que queira fazer uma regressão, que procure profissionais capacitados e com formação superior, para que tanto a ida à vidas passadas como a volta, sejam efetuadas em perfeita harmonia, visto que esses profissionais serão de fundamental importância no processo de regressão, podendo sanar ou agravar as situações psicológicas dessa pessoa.
 
Infelizmente, existem muitos aproveitadores por aí, que aprendem a fazer regressão em cursos que mais parecem cursos por correspondência, recebem um diploma fajuto e seis meses depois, passam a fazer regressão nas pessoas, tudo por interesse financeiro. Entendo que a dúvida de um ser humano é sempre cruel, angustiante, o que o leva no primeiro momento a querer fazer logo uma regressão e descobrir tudo.
 
No entanto, penso que a atitude em se fazer uma regressão só deva ser tomada somente em situações especiais e acompanhadas por um profissional de comprovada experiência.
  Apolo é o Deus dos oráculos, da medicina, da poesia e das artes, sendo considerado o senhor absoluto de todo saber. Na cidade grega de Delfos ficava o seu templo, cuja entrada lembrava: Conhece-te a ti mesmo. Depois de tal conselho, os peregrinos entravam para se consultar com a sacerdotisa Phytia que, em transe, transmitia as respostas de Apolo. Phytia era sempre enigmática, já que o objetivo era fazer o consulente pensar sobre si mesmo. Afinal, dentro de você existem todas as respostas. Pense nisso. Não vai ser uma Clínica de Regressão que irá fazer você resolver todos os problemas que te angustiam.
 

Texto extraído do livro de minha autoria (Regressão – Em algum lugar do passado)

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Domingo, 16 de Março de 2008
Mães de Acari

  Infelizmente a participação de policiais em chacinas, especialmente da PM, tem sido uma rotina no Rio de Janeiro. Na maioria dos casos, a violência contra grupos é resultado de vingança. Foi assim na Favela de Acari (1990), na Chacina da Candelária (1993), na Chacina de Vigário Geral (1993) e na Chacina da Baixada Fluminense (2005). Na Favela de Acari, 11 jovens, sendo nove menores, foram seqüestrados e nunca mais apareceram. Com esse desaparecimento, as mães desses jovens passaram a travar uma luta inglória na procura por seus filhos.
  Elas acabaram formando um grupo que ficou conhecido como as Mães de Acari e lutam até hoje pela punição dos seis policiais suspeitos por esse desaparecimento. Infelizmente, em 1993, a líder do grupo, Edméia da Silva Euzébia, também foi assassinada e o processo sobre o desaparecimento desses jovens foi arquivado. Pela lei, a polícia tem mais dois anos para esclarecer esse caso. Isso porque em 2010, quando o desaparecimento completar 20 anos, o crime vai prescrever, ou seja, não poderá mais ser julgado. No entanto, esse grupo é considerado pela Comissão Internacional de Direitos Humanos da ONU, como um importante exemplo de luta pela cidadania.
  Tivemos também em 1991 uma outra chacina, ocorrida no morro de São Carlos, na área central do Rio de Janeiro. Dez jovens foram assassinados, todos com tiros na cabeça, dentro de uma casa, por policiais militares. No local do crime e na presença da imprensa, os PMs alegaram que aqueles jovens tinham trocado tiros com a polícia, mas a perícia constatou que os tiros foram à queima-roupa, quando eles estavam deitados no chão. Muitos projéteis atravessaram a cabeça das vítimas e ficaram cravados no chão da casa.
 
Mais tarde, já com a imprensa do lado de fora da casa, os PMs descobriram que um rapaz – o 11º do grupo – estava vivo. Os policiais militares começaram, então, a bater panelas para fazer barulho, enquanto um soldado tentava eliminar esse jovem com um tiro. A tática não deu certo, pois o rapaz sobreviveu e denunciou o grupo.

Texto extraído do livro de minha autoria (TIO...)
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Sábado, 8 de Março de 2008
Comida é o que não falta

   Pesquisa efetuada em 2002, comprovou que no Brasil, 23 milhões de brasileiros passam fome e jogamos fora, todos os dias, comida suficiente para alimentar 19 milhões deles. Apenas 39% da produção agrícola nacional vira efetivamente comida no prato das pessoas, enquanto 61% se perde no plantio, na colheita, no transporte, no armazenamento, na indústria, no varejo e no consumidor, ou seja, na nossa casa mesmo.
   Estima-se que 39 milhões de quilos de alimentos se perdem todos os dias nas residências, supermercados, açougues, indústrias, grandes centros de armazenagem, lavouras, etc. Para que toda essa comida chegue a quem tem fome, é necessária uma mudança de comportamento de todos os envolvidos.
   Agora, você sabia que se doar comida e ela fizer mal a alguém, você pode ser preso? Pois é, uma lei de 1940, impede que restaurantes dêem as sobras de comida para quem precisa. Impede porque, segundo a lei, a responsabilidade, no caso de uma pessoa passar mal com o alimento doado, é dos restaurantes.
  
Num país de famintos, precisamos mudar essa lei. Para acabar com esse absurdo que emperra grandes doações, foi proposto o que ficou conhecido como Estatuto do Bom Samaritano, que absolve quem doar comida de boa-fé. Porém, o Estatuto patina no Congresso Nacional desde 1997 e até agora não foi votado. Enquanto isso milhares de pessoas morrem de fome, outras roubam e matam para comer e continuamos jogando comida fora. Pense nisso.

Texto extraído do livro de minha autoria (TIO...)
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Domingo, 2 de Março de 2008
Certidão de Nascimento

   No Brasil, mais de 800 mil crianças não são registradas no primeiro ano de vida. O direito a um nome e a uma nacionalidade é uma condição básica e imperativa, prevista na Declaração Universal dos Direitos da Criança, e a falta desse registro, concorre para a exclusão das crianças no planejamento público, a dificuldade de acesso a centros de educação e de saúde, e a impossibilidade de cadastro em programas de assistência social, como o Bolsa-Família, por exemplo.
  
Sem a certidão de nascimento, a criança convive num círculo vicioso de exclusão. Cria-se em nossa sociedade, de forma cruel, além dos sem-terra e dos sem-teto, os sem-nome. Desde 1997, uma lei federal obriga os cartórios a fazer o registro civil e emitir a certidão de nascimento, sem nenhum ônus, independentemente de comprovação de renda familiar. Porém, em alguns lugares, essa lei ainda não é cumprida.
   Na época do nosso descobrimento, quando em 22 de abril de 1500, após 44 dias de viagem, a frota de Pedro Álvares Cabral, composta por 13 navios, aportou nas enseadas do Estado da Bahia, Pero Vaz de Caminha escreveu uma carta para o rei de Portugal, Dom Manuel, relatando o descobrimento de uma nova terra. Pela riqueza de detalhes constantes nessa carta, alguns historiadores exageram ao afirmar que ela representa a Certidão de Nascimento do nosso país. 
   Ou seja, até o nosso país possui uma Certidão de Nascimento, mas essa condição não é válida para muitos brasileiros.

 Texto extraído do livro de minha autoria (TIO...)
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Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2008
Viajar para fora do corpo

   Para algumas pessoas, uma simples noite de sono pode ser repleta de aventuras. Através da projeção astral é possível encontrar uma pessoa querida que já não vive mais, aprender com espíritos mais evoluídos, ou mesmo vivenciar uma vida anterior. Todos nós saímos do corpo, mas a grande maioria não percebe. Muitos nem lembram que sonharam, imagina se vão lembrar que saíram do corpo. De todas as pessoas que saem do corpo, 89% se projetam sem lucidez, cerca de 9% têm uma projeção parte lúcida e parte inconsciente, que é confundida com o sonho e somente 2% das pessoas têm projeção totalmente lúcida.
   Há vários sintomas de projeção do corpo. Normalmente as pessoas sentem esses sintomas durante o sono, mas devido à falta de informação do que está acontecendo, ficam com medo de contar para outras pessoas. Até porque normalmente é estranho você experimentar sensações decorrentes da soltura do corpo espiritual em relação ao físico.
   Por outro lado, quando ocorre a projeção lúcida, ou seja, quando ocorre a soltura do corpo espiritual em relação ao físico, muitos têm medo de se perder no além, ou então, de que algum outro espírito ocupe o corpo, enquanto a alma estiver fora. Na realidade esse pensamento é uma bobagem, pois quando a consciência se projeta, o espírito fica ligado ao corpo físico por um conduto energético, que os antigos chamavam de cordão de prata, parecido com uma extensão de luz brilhante.
   Independente de ter medo ou não, normalmente estamos sujeitos a essa sensação e uma delas, diria até a mais famosa de todas, acontece com a sensação de falsa queda durante o sono ou cochilo.
   Quase todo mundo já sentiu isso alguma vez. A pessoa está deitada cochilando e, repentinamente, tem a sensação de estar escorregando ou caindo abruptamente da cama. Então, ela desperta com um solavanco físico e um pequeno susto. O que aconteceu? Simplesmente seu corpo espiritual deslocou-se uma polegada para fora do alinhamento vibratório com o corpo físico e foi tracionado vigorosamente para dentro, pois o metabolismo ainda estava ativo e impediu uma soltura maior.
   Claro que a pessoa acorda assustada, afinal é estranho ter essa sensação de solavanco, mas numa análise mais calma, isso não traz nenhum dano físico ou emocional para a pessoa. Diria em linhas gerais que deve ser considerado como normal uma pessoa sofrer essas sensações. O problema é a pessoa acreditar que realmente aquela sensação é normal.
   Às vezes brincamos que precisamos levar a nossa alma para passear. Parece até que vivemos com a nossa alma presa e que ela precisa passear, espairecer, respirar um pouco, fora do nosso corpo. Por outro lado, talvez com esse passeio, a nossa alma possa se encontrar com as nossas outras vidas ocultas. 

Texto extraído do livro de minha autoria (Regressão – Em algum lugar do passado)

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Sábado, 9 de Fevereiro de 2008
Pedofilia
 Pedofilia – É um distúrbio de conduta sexual, onde o indivíduo adulto sente o desejo compulsivo em praticar sexo com crianças ou pré-adolescentes. Esse distúrbio ocorre na maioria dos casos em homens de personalidade tímida, que se sentem impotentes e incapazes de obter satisfação sexual com mulheres adultas.
No dia 18 de maio de 1973, a menina Araceli Cabrera Crespo, com apenas 9 anos de idade, foi espancada, torturada, estuprada e morta. Depois, ela ainda teve parte do corpo, principalmente o rosto, desfigurado com ácido. O crime aconteceu na cidade de Vitória, capital do Espírito Santo, mas chocou o país inteiro. E maior impacto causou ao se descobrir que os criminosos eram jovens rapazes da mais alta elite da sociedade local. Infelizmente, nunca foram punidos, pois na época o crime foi acobertado por policiais e políticos corruptos da região.

O escritor e roteirista José Louzeiro, no livro “Araceli, meu amor” destaca que os assassinos estavam excessivamente drogados, perderam o controle, morderam e tiraram pedaços da vagina, da barriga e dos peitos da menina. Depois jogaram ácido no corpo para dificultar sua identificação. Em função dessa violência e das investigações em curso, ela ainda ficou três anos com o corpo insepulto na gaveta do Instituto Médico Legal de Vitória.

A partir daí, essa data, 18 de maio, transformou-se no Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. No Brasil, a lei 4.358 de 21 de junho de 2004 estabelece que a prática da prostituição ou exploração sexual de crianças e adolescentes é crime punido com pena de quatro a dez anos de prisão e multa. Incorrem nas mesmas penas os responsáveis pelo local em que ocorram tais práticas. Se filmar ou tirar fotos, o criminoso pode pegar até quatro anos de cadeia.

Segundo dados da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, são registrados no Brasil cerca de 60 mil casos por ano de exploração sexual de crianças e adolescentes. Ou seja, a cada nove minutos uma criança sofre exploração sexual no nosso país. Estimativas apontam que quatro em cada cinco casos desse tipo de crime contra crianças e adolescentes são cometidos por familiares ou pessoas próximas às crianças, como pais, padrastos, tios e amigos da família.

Dentro desses dados, comprovou-se que 40% dos casos são provenientes da região Nordeste e a maioria das vítimas são meninas e mais da metade delas acusa os pais ou os padrastos de serem os agressores. Por isso, muitas vezes a família prefere se calar. Mas quem vence o medo tem a chance de superar um trauma e de mudar uma realidade bem mais comum do que se imagina.

O número do Disque-Denúncia para casos de violência contra crianças e adolescentes é 100, válido de qualquer lugar do Brasil. Pedófilo significa "amante de crianças", no sentido exato da palavra.

 

Texto extraído do livro de minha autoria (TIO...)

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Sexta-feira, 1 de Fevereiro de 2008
A Regressão, o Santo Daime e o Xikunahity

Acordei meio zonzo, com o sol entrando forte pela minha janela. Não tinha mais pó de café e nem erva-mate. Resolvi preparar o meu chá com pó de guaraná. Peguei o bastão de guaraná e ralei na grosa para retirar o pó e preparar o chá.
Saí da casa e fiquei vagando por entre os animais e depois pela plantação de frutas no pomar. Segui até o riacho e ao caminhar pela margem, resolvi colher um pouco da erva que tenho aqui plantada e fazer o meu chá de viagem, que eu chamo também de trip tea.
Como o dia estava muito quente, resolvi não trabalhar na roça e achei que seria então, um bom motivo para viajar pelo meu passado. Há muito tempo que não viajava e entendi ser hoje um ótimo dia. Colhi o cipó jagube e a folha rainha e fui pra casa preparar o chá. Cortei o cipó em vários pedaços e coloquei tudo numa vasilha com um litro d’água, junto com a folha. Antes de começar a fervura, retirei a vasilha do fogo e coloquei aquele chá resultante em dois copos com quantidades iguais.
Na realidade eu nunca entendo direito, porque sempre preparo dois copos. Parece que tem alguém do meu lado que também participa dessa viagem, como se fosse o meu guia. Recordo-me apenas que faço a ingestão de apenas um copo e quando volto da viagem, vejo que o outro copo também está vazio, só que eu não lembro se, durante a viagem, eu também bebo o segundo copo. Com os dois copos cheios sobre a mesa, eu acendi uma vela e rezei um Pai-Nosso e uma Ave-Maria. Peguei um dos copos e comecei a beber de forma devagar.
Um gosto horrível invadiu a minha boca. Era sempre assim. Nem eu acredito como posso beber essa bebida de gosto tão ruim. Sempre ela me causa uma sensação de gastura muito desagradável. Logo em seguida, comecei a cantar um dos hinos que aprendi com os praticantes do Santo Daime, quando estive na Amazônia. Na realidade, acho que ao cantar esses hinos faço a invocação da abertura do meu subconsciente para começar a minha viagem.
Permaneci sentado com os braços e pernas descruzadas. Aprendi ser essa a posição ideal para não atrapalhar a circulação de energia e fechei os olhos para permitir que a viagem começasse logo em seguida. Nesse dia, algo estranho aconteceu, talvez por isso eu esteja fazendo este registro agora. É que, em todas as vezes que comecei o ritual, nunca demorou mais de vinte minutos para começar a viagem, mas nesse dia especificamente, não estava conseguindo.
Comecei a me inquietar e a sentir um calor insuportável até que, não conseguindo viajar, levantei-me bruscamente e fui até a cozinha. Não estava conseguindo me concentrar. Deitei no chão da cozinha, queria me refrescar. Um calor impressionante invadiu o meu corpo provocando um terrível mal-estar. Nunca havia me sentido assim, talvez tivesse exagerado na composição da mistura das ervas, na hora do preparo do chá.
Logo em seguida, voltei pra sala e me coloquei de novo na mesma posição, mas ainda assim não conseguia me concentrar. Peguei um pano, molhei com água e coloquei na minha nuca, fazendo compressão para ver se diminuía aquele calor, mas a sensação de mal-estar continuava. Uma sensação de sufocamento me assustava a ponto de achar que iria desmaiar.
Desci da cadeira e resolvi ficar deitado no chão mesmo. Dessa forma, evitaria algum dano físico maior, caso efetivamente desmaiasse. Passei a entender que sem me concentrar eu não conseguiria efetuar a regressão. Pensei no meu filho e comecei a chorar. As lágrimas misturavam com o suor infernal que escorria no meu rosto. Até que fechei os olhos de forma dura, comprimindo rigidamente as minhas pálpebras e percebi que fui arremessado no espaço.
O mal-estar foi passando, sentia o frescor de navegar pelo espaço e me considerava fazendo parte dele, abraçando-o. Fiquei integrado ao universo, como se uma simbiose estivesse acontecida. Não sabia se voava isoladamente, ou se todo o universo se movia junto comigo, como se fosse um corpo só. Lembro-me que uma imensidão azul, bem escura, quase negra, tendo ao fundo muitas estrelas, surgiu à minha frente.
Logo em seguida, pude observar o desenho de um povoado indígena, que surgiu em forma de flash na minha mente. Comecei a ver pessoas e a identificá-las como índios, pelas suas vestes, pelas suas ocas e pela sua forma primitiva de vida. Naquele momento iniciei um contato com eles, só que era como se não precisássemos falar. De repente, eu sabia de tudo. Era como se a minha mente fizesse parte da mente deles e vice-versa.
Um menino indígena se aproximou com uma fruta na mão. Ele me ofereceu a fruta e começou a falar palavras indígenas, informando-me que ele era da tribo Parecis e que gostava de mim. Um sentimento de extremo conhecimento me invadiu naquele momento. Eu entendia o que o menino falava, apenas não entendia porque aquela viagem tinha me levado para aquele lugar. Aliás, o que sempre me incomoda nas minhas viagens ao passado, é que eu nunca tenho o controle para onde vou e nem quando volto.
Logo em seguida, fui procurado por uma pessoa que demonstrava ser o cacique daquela tribo e fui convidado para assistir uma competição entre eles. Ele me informou que aquela competição chamava-se Xikunahity, ou futebol de cabeça. Na realidade o Xikunahity (pronuncia-se Zikunariti, na linguagem dos Parecis), tratava-se de um jogo praticado em um campo de terra batida, cujo tamanho era semelhante a um campo de futebol, sendo jogado com uma espécie de bola, feita pelos Parecis através da seiva da mangabeira, uma árvore que fornecia um tipo de látex.
Passei a assistir o jogo, que era disputado por duas equipes, com dez integrantes cada e que começava com a bola sendo lançada para o campo do adversário. Após esse lançamento, a bola não poderia ser mais tocada com as mãos, pés ou qualquer outra parte do corpo, mas poderia tocar apenas uma vez no chão, antes de ser rebatida pela outra equipe, que para rebatê-la, deveria utilizar apenas a cabeça. Observei que os índios se atiravam e mergulhavam com o rosto rente ao chão, livrando o nariz de tocar o solo, para possibilitar uma certa violência no chute com a cabeça. Constatei ali, uma extrema habilidade, destreza e técnica necessária no recebimento e arremesso da bola.
Os pontos eram marcados quando a bola não era devolvida pela equipe adversária, ou seja, quando ela deixava de ser rebatida com a cabeça. Durante o jogo, o cacique me explicou que a prática daquele esporte tinha origem diretamente ligada às suas mitologias. A lenda Parecis conta que o Xikunahity foi criado pela principal entidade mítica da cultura Parecis, o Wazare. Depois de cumprir sua missão de distribuir o povo Parecis por toda a Chapada dos Parecis, Wazare fez uma grande festa de confraternização, antes de voltar para o seu mundo. Durante essa festa, a entidade mítica mostrou a todos a função da cabeça no comando do corpo e sua capacidade de desenvolver a inteligência e alcançar a plenitude mental e espiritual. Ele também demonstrou que a cabeça poderia ser usada em sua capacidade física, especificamente na habilidade para com o Xikunahity e nesta comemoração, aconteceu a primeira partida desse esporte.
O cacique me contou também que esse esporte só era praticado durante grandes cerimônias, como oferta da primeira colheita das roças, iniciação dos jovens de ambos os sexos, reforma das flautas sagradas, caça, pesca, coleta de frutas silvestres abundantes e a reincorporação de um espírito novo em doentes terminais. Naquele instante, confesso que tive um pouco de medo. Será que eles utilizariam o meu espírito no corpo de algum doente terminal? E se eles conseguissem reintegrar o meu espírito no corpo do meu filho? Meu filho estava morto, mas e se eles conseguissem ressuscitá-lo, utilizando o meu espírito? Achei que nada daquilo em que estava pensando poderia ser possível e continuei a observar o jogo.
Ao seu término, fui surpreendido pelo cacique que me pediu que entregasse o troféu à equipe vencedora. Na realidade em um canto do campo havia flechas, alguns animais presos e uma índia jovem. Entendi que deveria entregar aos vencedores aqueles prêmios. Mas como entregar o quê pra quem? Entendi também porque fui escolhido pelo cacique para fazer aquela distribuição. Afinal, o prêmio mais cobiçado seria a índia jovem e neste caso, o cacique não queria se comprometer entregando a jovem para um e esquecendo os demais.
Fui até o centro do campo onde as equipes estavam perfiladas, frente a frente, formando um corredor. Fui apanhando os troféus que estavam num canto do campo, e de forma aleatória, fui entregando aos participantes da equipe vencedora. Primeiro peguei as flechas, num total de cinco e entreguei para cinco índios diferentes da equipe vencedora. A cada índio que entregava a flecha, era reverenciado por todos os demais, tanto pela equipe vencedora, como pela equipe perdedora, como se estivessem aplaudindo aquela entrega. Dentre os animais, havia uma cobra, uma onça pequena e dois macacos. Peguei estes animais e da mesma forma, fui entregando aos demais vencedores.
Por último, sobrou a índia jovem, assim como sobrou um índio na equipe vencedora, que não havia recebido nenhum dos prêmios entregues. A ele caberia este prêmio especial. Peguei a índia jovem e a levei em direção ao índio. Por que escolhi aquele índio para receber aquele prêmio especial, não sei. Um silêncio se formou naquele momento. A índia jovem mantinha-se com o olhar cabisbaixo e o índio aproximou para receber o seu prêmio maior. Perguntei a índia qual era o seu nome e ela me disse que se chamava Haliti, que significava gente. Perguntei ao índio o seu nome e ele me disse que se chamava Wazare, ou seja, ele tinha o mesmo nome da entidade mítica que criou a cultura Parecis.
Uma festa acontece na tribo. Entendi que promovi ali a união de Haliti com Wazare. Após essa união, fui procurado novamente pelo cacique, que me disse que naquele momento eu tive a sabedoria de fazer a escolha certa, já que aquele índio Wazare era a reencarnação do espírito da entidade mítica que criou a cultura Parecis e que, de acordo com as tradições da tribo, Wazare, para se perpetuar como o novo líder, deveria casar naquele dia, antes do início da chegada da lua cheia.
Contou ele ainda, que essa união teria que ser feita naquele dia e que a escolha da companheira não poderia ser feita nem pelo Wazare e nem por ninguém daquela tribo. Para que isso se perpetuasse de acordo com as tradições da tribo, isto deveria ser feito por um outro espírito, que conforme a lenda, chegaria àquela tribo vindo dos céus e faria a união dos dois.
Não sei porque, mas me senti lisonjeado, quiçá abençoado, por ser aquele espírito ou anjo vindo do céu, o que de certa forma, me confortou muito. Permaneci naquela tribo por um bom tempo. Senti-me como um índio. Não consegui, no entanto, identificar se naquele momento também me vestia como eles, mas com certeza vivi como eles, alimentei-me de seus alimentos e tive ali a sensação de ser, assim como eles, dono da floresta e conhecedor dos espíritos que formam o nosso universo.
Ao voltar da minha viagem resolvi escrever as palavras indígenas que aprendi, para deixar registrado o contato com essa civilização, que foi efetuada em algum lugar do meu passado. E ao fazer este registro tento recuperar uma cultura esquecida, marginalizada, de um povo que efetivamente são os verdadeiros donos do nosso país.
Eteti – Carne
Alotsu – Arroz
Aboala – Abóbora
Tchynise – Gato
Owi – Cobra
Oli – Capivara
Cotyi – Anta
Zaha – Paca
Tacuidya – Galinha
Zotyare – Veado
Kolata – Siriema
Awo – Ema
Koase – Peixe
Tchini – Onça
Awaehalo – Bonita
Iwaxidyahalo – Feia
Oidyo – Mulher
Tyoloe – Farinha
Kixity – Pé
Idykaty – Fogo
One – Água
Atyta – Número 1
Ymyma – Número 2
Anama – Número 3
Zalakako – Número 4
Akae – Número 5
Asewekakore – Número 6
Babera – Papel
Haliti – Índio
Imuti – Homem branco
Nityani – Filho
Hati – Casa
Abebe – Avó
Janaína awaealo... significa... Janaína, você é bonita.
Nawaitita isso... significa... Eu gosto de você.
Isso awae... significa... Você é legal. 

Texto extraído do livro de minha autoria (Regressão – Em algum lugar do passado)
Confira o meu site: www.carloslopes.com.br

postado por Carlos Lopes às 21:49 comente aqui ! | comentários (4)
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